Deep Blue


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As Horas

Ele não está aqui. E não adianta chorar porque ele não vai estar aqui até o ano que vem. Quem disse que isso nunca aconteceria comigo? Acontece com todas as mães solteiras ou separadas, por que eu achei que sairia ilesa? Todas as festas de fim de ano juntos, e de repente, ele não está mais. Ele descobriu que tem outra família, tem que viver outras coisas. E por mais que eu saiba que ele não me pertence, meu coração de mãe fica despedaçado. Como eu não percebi que um dia aconteceria? Sei que parece um drama, ele não foi embora, só foi viajar. Mas é a segunda vez na vida dele em que vai sem a minha companhia, ou a companhia dos meus pais. É estranho. “Não precisa ligar, ele está bem.” Eu sei que ele está bem. E quando liguei ontem, depois de ter passado horas com o coração apertado, esperando o avião pousar com segurança, ele diz, “Oi, cheguei. Preciso ir para a piscina, agora, mãe. Tchau.” E desligou o celular. Como um homem de negócios muito ocupado com o retângulo azul cheio de água no hotel, meu pequeno não podia me dar atenção. Só me resta esperar passar as horas e acreditar de olhos fechados que está tudo bem. Peguei algumas roupas, coloquei na mala para passar alguns dias na casa do meu noivo, assim eu me mantenho desligada do assunto. Tenho dormido no quarto dele (não por drama, mas por uma mera oportunidade de dormir numa cama de verdade, já que meu leito se tornou um desconfortável sofá-cama há cinco meses), mas é estranho. Todos os Lego-Technics montados na prateleira, a gaveta com as “engenhocas”, a TV e o DVD, a escrivaninha, os estojos, os lápis de cor. É tudo dele. E eu ali no meio, me sinto completamente orfã. Continuo disfarçando. “Vamos ao cinema? Vamos pra balada? Vamos fazer um programinha a dois?” Mães cansam durante o ano, às vezes passando meses pedindo um tempinho para namorar, para assistir um filme “chato”, para passar somente um dia sem ouvir seu filhote gritando “mãaaae, venha ver o que eu montei”, para ler um livro sem ser interrompida, e quando ele vai embora, a casa se torna um vazio silencioso e triste. Ontem eu chorei de angústia até receber notícias de que ele estava bem, em outro estado brasileiro. Parece tolice, mas continuo aqui, esperando as horas passarem. Fiquei triste, sem fome, sem vontade de fazer nada. Fiquei um dia perdida, deitada na cama, dormindo sem parar. Parece tudo exagero, eu sei, mas acho que poucas pessoas que não são mães entenderiam. Ele volta, eu sei. Em 2012. Está logo aí, eu sei… mas enquanto ele não volta, eu vou inventar mil desculpas para não ver as horas passarem…

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Sonhos

Eu sonho muito. Quando eu digo sonho, me refiro ao que acontece depois do instante em que apago a luz, deito e fecho os olhos. Meu cérebro não para de funcionar por pensamentos muitas vezes aparentemente inúteis e à noite meu subconsciente tece uma colcha de retalhos insana e passa como um filme em minha mente, que enxerga tudo distorcido enquanto alguém desliga meu estado de vigília. Eu consigo lembrar claramente de alguns sonhos. Tenho dificuldade de descrever alguns porque quando acordo, parecem mais um quebra cabeça de mil peças montado por uma criança de três anos.  Alguns temas se repetem e alguns fatos da vida real aparecem nos meus sonhos completamente distorcidos. Pessoas se misturam, trocam de papel, alguns traumas retornam como fantasmas. Alguns sonhos são megalomaníacos. Sonho com catástrofes, com fugas de tsunamis e algumas fobias que sofro. Sonho também com pessoas do passado, pessoas que já partiram, amigos que se afastaram e membros da família com os quais perdi contato. Às vezes sonho que volto para a escola, às vezes são pesadelos que remetem aos períodos de recuperação e ao fato ocorrido em 1994 quando fui reprovada no primeiro ano do Ensino Médio, por pura vagabundagem. Trauma? Acredito que não. É um mero arquivo. Sonho com perdas de pessoas que amo, que saio do meu corpo, vou até a janela do meu quarto e vôo para uma dimensão completamente diferente. Sonho que estou caindo de um prédio, saltando de pára-quedas na chuva, que consegui comprar meu tão sonhado apartamento, que estou caminhando numa estrada escura, sozinha, que estou fugindo de um assassino e preciso correr muito, que minha cachorra morreu, que meu filho sumiu, ou que estou numa sala cercada de centenas de baratas cascudas que vêm à minha direção. Sonho que meu avô aparece sorrindo na minha frente e me abraça (o meu favorito), sonho que meu noivo me deu um pé na bunda ou que o Brian May está tocando guitarra na minha frente, que estou devorando um monte de chocolate (e acordo morrendo de vontade). Sonho que entrei num avião com destino incerto e fui parar no Oriente Médio sozinha, no meio de uma cultura que me causa pânico, ou que fui visitar a Disney novamente. Sonho que caí no mar. O lugar onde estou nadando é muito fundo e tenho calafrios. Eu sei da onde veio esse sonho. Certa vez eu estava na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Naquela época, tinha aproximadamente sete anos de idade. A Barra é uma praia de tombo extremamente perigosa. Fui até a beira do mar buscar água num balde azul, que se soltou da minha mão e rapidamente foi parar num local muito fundo. Eu sempre morri de medo da Barra. De outras praias, não. Mas a Barra sempre me causou calafrios porque eu lembro que a água do mar “puxava” com muita facilidade. Vi um afogamento na Barra e era muito pequena. Um homem morreu ali, na nossa frente, acredito que foi um pouco traumático. Nesse dia em que perdi o balde, lembro de ter ficado na beira do mar e vê-lo se afastando até sumir e fiquei imaginando o que teria acontecido comigo se tivesse tentado nadar para alcançá-lo. Mais tarde, quando minha mãe perguntou, “cadê o balde azul?”, eu menti, disse, “não sei”, acreditando ter feito algo muito errado. Difícil entender o que se passou na minha cabeça infantil e por quê eu senti uma culpa tão grande por deixar o balde ir embora. Passei então a sonhar com uma certa freqüência, que estou em uma praia de tombo, na água, e não consigo voltar para a areia. Acredito que esse sonho, que se repete até hoje, tenha alguma ligação com o balde azul da Barra da Tijuca. Não sei. Pergunte ao Freud. Talvez ele explique.

É muita informação em um mesmo HD insano. Meu cérebro não tem limite. Quando acordo não consigo juntar as pecinhas desse quebra-cabeça e lembro de pedaços do sonho, como fotografias rasgadas ou textos inacabados. Lembro de palavras ao vento, pedaços de conversas, e nada faz sentido. E então me pergunto o que nos leva a passar 1/3 de nossas vidas (já que o dia tem vinte e quatro horas e teoricamente passamos oitos delas dormindo) num universo paralelo, numa realidade alternativa, acreditando no momento do sonho que aquilo é cem por cento real? Realmente, não há lógica alguma para a mente humana. E prefiro não ouvir explicação da psicologia. Prefiro deixar os sonhos onde eles realmente pertencem – a um universo surreal, muitas vezes inexplicável.