Deep Blue

Desprendimento

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Acho que ninguém aguenta mais me ouvir falando que eu sinto falta do meu filho. Nesse Carnaval ele decidiu no auge da sua maioridade (dez anos) que eu vou ter algumas migalhas do seu atribulado feriado cheio de compromissos, afinal, dez anos é uma idade cheia de obrigações que forçam deixar mães em último plano. Sei que crianças não são eternas, sei que crescem e vão embora. Uns aos 18, outros aos 25, outros aos 30. Aos 10? Inédito para mim. Desprendimento. Que palavra mais filha da puta. “Pratique o desprendimento”. É fácil desprender-se de coisas materiais. Sabe quando você decide fazer um “rapa” no armário? Ah, não uso essa blusa há três anos. Está boa ainda, alguém pode precisar. Você até chega a pensar, “mas se eu comprasse uma calça verde-limão, cairia muito bem com essa blusa”, mas na verdade, se você largou ali na prateleira nos últimos três anos, você não precisa dela. E se por acaso, sua calça preferida – aquela que você gosta tanto que mal pára limpa no armário: vai do varal para o corpo – cair acidentalmente no balde com cândida, você a perderá. E você pode até ficar chateada porque afinal, ela era bonita e se ajustava no corpo tão confortavelmente… Mas você pode comprar outra. Se você está sem dinheiro, você usa a outra que você gosta. Não faz mal. Você pode, algum dia, precisar se desfazer de algo que alguém que você ama muito te deu. O sentimento que isso provoca é um certo remorso, mas você logo lembra que o amor que sente por aquela pessoa vai muito além de possuir algo que ela te deu, Está vendo como é fácil desprender-se de coisas materiais? As coisas nem fazem tanta falta assim. São passageiras. Aposto que você nem dá muita bola para o presente que você queria tanto e ganhou de Natal há dois anos. Ele não é mais importante do que as pessoas que fazem falta. Elas custam mais caro. Às vezes, a falta de habilidade do desprendimento nos custa uma dor de cabeça, lágrimas, ou mesmo uma dor de estômago insuportável que o faz subir pelas paredes numa sexta-feira, véspera de Carnaval, em pleno ambiente de trabalho. Dores, enjôos, insônia, noites mal dormidas, choradeira, mal humor, falta de humor, perda de esperança, irritabilidade, inapetência. São os sintomas que algumas pessoas têm quando alguém faz falta. É fácil tentar pensar em outra coisa quando esse alguém não é ninguém mais, ninguém menos do que o seu filho de dez anos. Ameniza um pouco pensar que ele quis assim. Quem está sofrendo é você, não ele. Sorte a sua, caso contrário, os sinais da ausência também viriam dobrados. Talvez eu precise de alguém para conversar. Não um amigo. Meus amigos são ótimos, tentam me animar, me dão milhares de conselhos, mas acho que estão cansados, porque ultimamente nada funciona. Talvez seja a hora de render-se e entender que uma terapia é uma questão de sobrevivência, afinal, ainda preciso manter meu trabalho, manter a minha saúde e continuar a fazer meu corpo funcionar, porque ele já me enviou alguns sinais informando que com essa tristeza toda, alguns programas do sistema serão fechados. Perdoem-me pelo mono-tema. Quero voltar à minha busca espiritual, e mesmo meus textos ácidos e polêmicos são melhores do que isso. Sei que com toda essa mudança, e ter sido exposta a uma  visão espiritual tão diferente, estão provocando essa explosão de fúria dentro de mim. Gilberto Gil disse, “uma bomba sobre o Japão, fez nascer o Japão da paz.” Que acabem logo as explosões… e que eu aceite logo essa nova realidade.

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Autor: R.

Buscando viver melhor comigo mesma e com o mundo que me cerca. Procurando compreender qual é a melhor forma de viver, praticando o desapego, tornando o espírito leve e perseguindo a felicidade através da GRATIDÃO, nos dias ensolarados e nos dias cinzentos - meu desafio para a vida. Sempre gostei de escrever. Desde 2002, tive diversos blogs criados e deletados, mas como Fênix ressurge das cinzas, espero que cada novo blog seja definitivo. Esse é um blog sobre tudo que faz parte do meu Universo.

Um pensamento sobre “Desprendimento

  1. Seria estranho se você, mãe, não se sentisse amputada de seu filho!
    Parece a morte em vida… mas o que pode ser feito nesse momento?
    Constatar a dor da “perda”, urrar, gritar xingar…em fim botar toda essa sujeira pra fora, lavar o coração (que deve estar em frangalhos), e tocar a vida. A dor, seja ela qual for, passa com o tempo. Com o tempo a gente aprende a conviver com as nossas mazelas e como somos seres de tremenda adaptação, nos adaptamos ao que é!
    Infelizmente a vida É…

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