Deep Blue


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Texto dos 34

Eu nasci ontem, dia 24 de Junho. E todo ano, tento renascer. Duas vezes.

Minha vida é música. Sendo assim, o Bono Vox gritou no meu cérebro hoje de manhã, a caminho do trabalho. O mais engraçado é não o fato de estar ouvindo U2 no momento em que isso ocorreu. Eu nem tenho a música em questão no meu celular. Aliás, eu não estava ouvindo música nenhuma quando o Bono gritou. Talvez, se eu não tivesse perdido dez minutos da minha manhã procurando meus fones de ouvido (que eu havia esquecido no trabalho), eu não teria prestado atenção que o vocalista irlandês estava só me avisando o fato que eu já conhecia bem: “You’ve got stuck in a moment and you can’t get out of it.” Em partes, Bono. Vou concordar em partes, Ok? É verdade, estou presa aqui, mas quem disse que eu não posso sair?

House acabou. House, o Gregory, sabe? E eu vou ser sincera, eu morri de inveja dele e do Wilson no final. House fingiu que morreu, subiu numa motoca e fugiu. Nossa, que vontade! Fingir que morri (menos pro meu filho, ele sempre saberia a verdade) e sumir por uns tempos, mas sem o Wilson, talvez sozinha. Esquecer um pouco das coisas que me magoam, aproveitar a vida e sentir o vento contra o rosto numa estrada desconhecida. Uma vez eu fugi sozinha. Não com a minha Harley Davidson, claro, achei melhor deixá-la na garagem. Fui de Celta mesmo. Fugi para a casa da minha amiga, numa cidade de 15.000 habitantes, acho. Mas engana-se você que pensa que fugi de mim mesma. Pra falar a verdade, lá eu encontrei comigo, assim, dei de cara, não deu nem pra disfarçar. Minha amiga sabe bem disso.

Cadê a força para acreditar que esse momento no qual me encontro stuck, é passageiro? Hoje um amigo me pediu paciência. Eu estou cansada de ter paciência. Ou talvez, eu nunca tive paciência. Estou ali, de braços cruzados, olhando no relógio, sentada num murinho, balançando as pernas impacientemente. Vai ver que é isso.

Move, darling. Salte do murinho, bata a poeira das mãos e diga para você mesma: “Vem comigo. Depois te explico.”


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O Inverno e a Esperança

Daqui a nove dias estaremos no ponto máximo de distância estamos no planeta em relação ao sol. Eu adoro o inverno. É mágico. Esses dias, porém, está havendo uma rebelião lá em cima. Parece que abriram a torneira. O inverno tem que ser seco, sem nuvens, sem chuva, com sol, e o céu tão azul que faz arder os olhos. Eu nasci três dias depois do solstício de inverno, e mesmo depois de quase 34 voltas completadas em torno do sol, ainda acho mágico fazer aniversário. Espero ter esse sentimento de magia quando o inverno e meu aniversário se aproxima para sempre. Aniversário é mais ou menos igual ao ano novo. No ano novo, brota uma esperança no coração, uma sensação de poder de mudar tudo. Tenho essa sensação duas vezes durante o ano. Uma no próprio Reveillon e outra, no dia 24 de junho, o dia em que nasci. Dia de São João. Sem a tal da esperança, não há razão para continuar. De onde buscaríamos tanta força para consertar as coisas que às vezes, parecem quebradas para sempre? Seria bem difícil. É por isso que gosto de dar esse mesmo tom ao meu aniversário. É claro que todos gostam de receber mensagens e ligações, mas nesse ano, eu tenho um pedido especial. Eu não quero presente. Aliás, eu quero sim. Eu quero um presente da vida. Eu quero voltar a acreditar. Eu preciso muito disso.

Então, que assim seja. Que num domingo frio, comum, embaixo dos cobertores, assistindo os últimos episódio de House, eu ganhe de presente de aniversário, a esperança, essa chama que nos move para frente. Que eu volte a acreditar nos sonhos que assim como a Floresta de Coníferas no Polo Norte, andam tão quietos porque cansei de acreditar. Que renasça dentro de mim, a esperança. E dentro de você, que me acompanhou até aqui, também, caso você esteja precisando. Que o futuro seja um desenho de traços definidos, coloridos, com um sol brilhando e um céu azul no fundo – como o inverno gelado que estranhamente, esquenta todos os anos, o meu coração. É isso que eu quero esse ano.


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Vicodin para a alma

E assim, finalmente, eu entendi o Gregory. Quase posso dizer que acredito que ele é de verdade. Uma pessoa que sente dores 24×7, só pode mesmo utilizar a bengala da ironia para  sobreviver. Hoje eu tive uma noite daquelas com direito ao pesadelo mais vira-lata que uma mãe sem filho pode ter. Eu poderia ter, literalmente, dormido sem essa. Mas não. O pesadelo foi comigo pra cama. Eu não vou contar o que eu sonhei. Vou deixar você, pessoa que ainda tem paciência de clicar no link para o meu blog, curioso. O sonho que eu tive doeu na alma, e por isso não vou contar, mas eu sei que agora você está se corroendo de curiosidade para saber como meu subconsciente me dilacerou ontem. Mas você vai pra cama sem essa. Boa noite.

Eu gosto do House a ponto de às vezes, esquecer que ele é de mentira. Acho que às vezes, eu queria ter um médico assim. Que tira sarro da verdade que corrói a vida alheia. Vai ver que é exatamente disso que estou precisando. Já que dói tanto, vamos partir para o sarcasmo? Afinal, alguns acontecimentos na vida vêm com um aspecto tão irônico mesmo, que quando as lágrimas secam, você começa a rir. A realidade da sua vida não se parece nem 1% do que você havia projetado? Dane-se. As pessoas foram embora precocemente? Paciência. O convênio me negou terapia até agosto. Mais uma piadinha que a vida me pregou. Num momento da minha vida em que dormir uma noite inteira tornou-se praticamente impossível e eu preciso de ajuda, não tenho. Quando nossos filhos nascem, parece que imploramos para uma noite inteira de sono. Aos dois anos, as peças de Lego embaralharam-se no chão numa tarde de domingo chuvoso e sentimos falta de poder apagar a luz, entrar embaixo do edredom e dormir sem a menor vergonha na cara. Parece que tem areia no olho. Quando eles têm nove anos, passamos os domingos no parque, de bicicleta, com as unhas mal feitas. Mas se eles vão embora, a gente se sente órfã. Sente culpa por ter sentido que durante tanto tempo, o corpo não acompanhou a mente. Sente culpa por ter implorado por meia horinha de sono numa tarde chuvosa de domingo depois de um almoço típico numa casa de família italiana. E então, a gente volta a não dormir,  a andar pela casa de madrugada, abrir a janela e contar quantas linhas de ônibus estão ativas às três horas da manhã. Pego o celular, entro no Facebook, me irrito com coisas inúteis, respondo mensagens, mas o que eu tenho vontade mesmo é de sair na rua andando de pijama. Uma vez, acordei com insônia em Botucatu, fim de outono. Fazia um frio de trincar os ossos de um urso polar e eu fui na área de serviço. O céu estava limpo e Vênus brilhava a leste. Lindo. Levei o telescópio lá pra fora e o coloquei na mira de uma ocular de 10 mm, com 2x de aumento de uma lente Barlow. Brilhou em sua fase crescente no meu espelho, como uma pequena lua prateada. Sinto saudades das noites no quintal em Botucatu. Lembro do ar gelado, do cheiro do tubo e do mato, dos mapas estelares espalhados no chão, da Luna, que teimava em passar embaixo do tripé do telescópio e deslocar tudo que eu havia focalizado. Tenho saudades do meu filho tirando minha concentração e falando, “Saturno? Já vi isso aí, mãe! Não quero ver novamente, obrigado.”

As noites de insônia em Botucatu eram mais confortáveis. Eu tinha todo o meu porto seguro lá comigo. A noção que eu tinha do tempo era diferente, mais sossegada, lazy. Quando voltei, tudo mudou, meus planos murcharam, meu filho foi embora e o meu telescópio voltou pra caixa. Nunca mais vi Vênus. Eu tinha tempo pra tanta coisa. Aqui na cidade do caos, o tempo voou, e a dinâmica do universo parece estática. Nada evoluiu. E sofri muitas perdas.

Assim como o House, sinto uma dor constante. Não na perna. Na alma. A última cena do filme “O Náufrago”, com Tom Hanks tem martelado a minha mente. Uma encruzilhada e uma oportunidade de seguir um novo caminho. Será que não é hora de deixar ir? Sabe… let go…? Até quando vale a pena sentir a culpa que sinto por ele ter ido? Até quando vou continuar com essa atitude inútil de consertar o que eu não quebrei? E como eu vou fazer isso sem sentir que estou abandonando o meu maior bem? Quando Vênus brilhava no meu telescópio, eu enxergava um mundo de possibilidades. Hoje me sinto como o Pequeno Príncipe. Presa a um planeta onde só existe uma flor. Quais são as coordenadas para sair daqui com o coração leve, sem dor e sem culpa?


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O chakra do plexo solar

Já faz um tempo que não consigo escrever. Fiz como o Windows costuma fazer. Ou como o meu celular Sony Ericsson faz diariamente. Travei. Também não vou colocar a culpa nele. A culpa é toda minha, por sentir tanta culpa de continuar a minha vida com ele fazendo parte dela pela metade. Deveria ter aplicado a máxima do Renato Russo, “já que você não está aqui, o que posso fazer é cuidar de mim.” Confesso que Renato Russo me deixa um pouco deprimida. Sei que ele era um Senhor poeta, assim como Cazuza, mas a forma como ambos lidaram com a morte difere bastante. Cazuza levou um tapa na cara e devolveu com toda força. Parece que Renato Russo se deixou abater. Prefiro a forma do Cazuza de lidar com as coisas, mas o meu melodrama megalomaníaco canceriano me faz agir meio como Renato Russo. Ou seja, eu fico um saco. Vai ver que já que ele não está aqui, eu deveria mesmo cuidar de mim. E nem é justo falar que eu me larguei. Está certo, eu fiz bem isso no começo mesmo. Em fevereiro, quando ele foi embora, eu fiquei destruída. Comi uma barra de 500 gramas por dia, fiquei uma bola, era só dar uma bica e eu poderia sair rolando. Fácil. Mas então entrei naquela montanha russa emocional, travei uma guerra equilíbrio x desequilíbrio, Deus e quem estava por perto viu a chatice que eu fiquei. Mas acho que chegou a hora de dizer chega. Chega de culpa, afinal, eu fiz de tudo para que ele voltasse. Ele não quis, então chegou a hora de, como disse uma amiga querida esses dias, “let go”. Afinal, ouvimos a vida inteira que não os criamos para nós mesmos. Não nos pertencem, não são nossas propriedades. Há momentos em que consigo enxergar isso com tamanha lucidez que me assusta. Em outros, seguir essa linha de raciocínio me deixa um tanto quanto confusa. Nesses momentos, o certo e o errado se misturam e talvez, minha inexperiência na vida acaba brincando comigo. Assim, vou tentando. Alguns dias eu consigo, em outros parece impossível. É melhor eu respeitar o ritmo da aceitação e deixar fluir.

Ouvi demais às pessoas e segui muito pouco os meus instintos. Na tentativa de reverter o que fui durante a maior parte da minha (totalmente instintiva), arranhei a minha percepção e me fechei não lutando para que as coisas fossem do jeito como eu queria. Não faz mal, a vida é feita disso mesmo e nem deve ser tão tarde assim. É hora de fechar meu plexo solar e reagir.

O plexo solar é o chakra da energia vital. Pense na cor amarela e localize o chakra localizado atrás do umbigo, no abdômen. Sabe quando sente a sua energia sendo sugada por outra pessoa? Tem gente que chama isso de “vampirizar”. A palavra parece que saiu de um livro de vampiros adolescentes como “Crespúsculo”, mas não é nada sobrenatural. Trata-se apenas de energia. A sensação de ser vampirizado é a mesma de se ter uma corrente que sai de um nível profundo do abdômen para fora do corpo, jogando toda a energia para fora e levando-o à exaustão sem esforço físico. Parece que apagaram a luz dentro de você. Então preste atenção o que aprendi com um colega de trabalho: toda vez que se sentir “vampirizado”, coloque uma mão sobre a outra (entrelaçando somente os polegares) sobre o umbigo. Dessa forma, você bloqueia a troca de energia entre você e o seu… “vampiro”. (Nada sexy, muito pelo contrário, alguém de que você vai querer manter distância). Ontem eu utilizei a técnica e funcionou como um milagre. Mas longe de milagre, só aprendi a controlar um dos meus chakras. Próximo passo, talvez um dos cursos de chakras com os meus professores de Yoga e fazer com que todos os “vampiros” à minha volta recolham-se à respectiva insignificância.


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Benzetacil é mais gostoso

Poucos irão entender que essa dor constante tornou demasiadamente cansativa.

Quero colo.

Férias.

Água.

Lembro que uma brincadeira estúpida da infância. Alguém te dava um beliscão com força e dizia “peça água”. Era a única forma de fazer a pessoa parar. Eu geralmente ria e não conseguia falar “água”. Ficava ali, aguentando a dor. Sarcasmo infantil. Estou pedindo água. Esse beliscão está doendo mais que benzetacil. Para quem cansou dos meus gemidos e foi reclamar… A gente conversa depois que você trilhar meus caminhos de boca calada.