Deep Blue

Vicodin para a alma

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E assim, finalmente, eu entendi o Gregory. Quase posso dizer que acredito que ele é de verdade. Uma pessoa que sente dores 24×7, só pode mesmo utilizar a bengala da ironia para  sobreviver. Hoje eu tive uma noite daquelas com direito ao pesadelo mais vira-lata que uma mãe sem filho pode ter. Eu poderia ter, literalmente, dormido sem essa. Mas não. O pesadelo foi comigo pra cama. Eu não vou contar o que eu sonhei. Vou deixar você, pessoa que ainda tem paciência de clicar no link para o meu blog, curioso. O sonho que eu tive doeu na alma, e por isso não vou contar, mas eu sei que agora você está se corroendo de curiosidade para saber como meu subconsciente me dilacerou ontem. Mas você vai pra cama sem essa. Boa noite.

Eu gosto do House a ponto de às vezes, esquecer que ele é de mentira. Acho que às vezes, eu queria ter um médico assim. Que tira sarro da verdade que corrói a vida alheia. Vai ver que é exatamente disso que estou precisando. Já que dói tanto, vamos partir para o sarcasmo? Afinal, alguns acontecimentos na vida vêm com um aspecto tão irônico mesmo, que quando as lágrimas secam, você começa a rir. A realidade da sua vida não se parece nem 1% do que você havia projetado? Dane-se. As pessoas foram embora precocemente? Paciência. O convênio me negou terapia até agosto. Mais uma piadinha que a vida me pregou. Num momento da minha vida em que dormir uma noite inteira tornou-se praticamente impossível e eu preciso de ajuda, não tenho. Quando nossos filhos nascem, parece que imploramos para uma noite inteira de sono. Aos dois anos, as peças de Lego embaralharam-se no chão numa tarde de domingo chuvoso e sentimos falta de poder apagar a luz, entrar embaixo do edredom e dormir sem a menor vergonha na cara. Parece que tem areia no olho. Quando eles têm nove anos, passamos os domingos no parque, de bicicleta, com as unhas mal feitas. Mas se eles vão embora, a gente se sente órfã. Sente culpa por ter sentido que durante tanto tempo, o corpo não acompanhou a mente. Sente culpa por ter implorado por meia horinha de sono numa tarde chuvosa de domingo depois de um almoço típico numa casa de família italiana. E então, a gente volta a não dormir,  a andar pela casa de madrugada, abrir a janela e contar quantas linhas de ônibus estão ativas às três horas da manhã. Pego o celular, entro no Facebook, me irrito com coisas inúteis, respondo mensagens, mas o que eu tenho vontade mesmo é de sair na rua andando de pijama. Uma vez, acordei com insônia em Botucatu, fim de outono. Fazia um frio de trincar os ossos de um urso polar e eu fui na área de serviço. O céu estava limpo e Vênus brilhava a leste. Lindo. Levei o telescópio lá pra fora e o coloquei na mira de uma ocular de 10 mm, com 2x de aumento de uma lente Barlow. Brilhou em sua fase crescente no meu espelho, como uma pequena lua prateada. Sinto saudades das noites no quintal em Botucatu. Lembro do ar gelado, do cheiro do tubo e do mato, dos mapas estelares espalhados no chão, da Luna, que teimava em passar embaixo do tripé do telescópio e deslocar tudo que eu havia focalizado. Tenho saudades do meu filho tirando minha concentração e falando, “Saturno? Já vi isso aí, mãe! Não quero ver novamente, obrigado.”

As noites de insônia em Botucatu eram mais confortáveis. Eu tinha todo o meu porto seguro lá comigo. A noção que eu tinha do tempo era diferente, mais sossegada, lazy. Quando voltei, tudo mudou, meus planos murcharam, meu filho foi embora e o meu telescópio voltou pra caixa. Nunca mais vi Vênus. Eu tinha tempo pra tanta coisa. Aqui na cidade do caos, o tempo voou, e a dinâmica do universo parece estática. Nada evoluiu. E sofri muitas perdas.

Assim como o House, sinto uma dor constante. Não na perna. Na alma. A última cena do filme “O Náufrago”, com Tom Hanks tem martelado a minha mente. Uma encruzilhada e uma oportunidade de seguir um novo caminho. Será que não é hora de deixar ir? Sabe… let go…? Até quando vale a pena sentir a culpa que sinto por ele ter ido? Até quando vou continuar com essa atitude inútil de consertar o que eu não quebrei? E como eu vou fazer isso sem sentir que estou abandonando o meu maior bem? Quando Vênus brilhava no meu telescópio, eu enxergava um mundo de possibilidades. Hoje me sinto como o Pequeno Príncipe. Presa a um planeta onde só existe uma flor. Quais são as coordenadas para sair daqui com o coração leve, sem dor e sem culpa?

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Autor: R.

Buscando viver melhor comigo mesma e com o mundo que me cerca. Procurando compreender qual é a melhor forma de viver, praticando o desapego, tornando o espírito leve e perseguindo a felicidade através da GRATIDÃO, nos dias ensolarados e nos dias cinzentos - meu desafio para a vida. Sempre gostei de escrever. Desde 2002, tive diversos blogs criados e deletados, mas como Fênix ressurge das cinzas, espero que cada novo blog seja definitivo. Esse é um blog sobre tudo que faz parte do meu Universo.

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