Deep Blue


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Deixar fluir

Sonhei com a minha antiga casa de Botucatu. Às vezes, não é fácil praticar o desapego. Não é raro sonhar com aquela casa. Eu gostava dela. Ainda bem que ela foi vendida, era algo realmente necessário. Mas eu tenho saudades da sala. A sala tinha o pé direito alto e duas portas de vidro, uma de cada lado, que davam passagem para o lado de fora. Em cima de uma das portas, haviam duas janelas que permitiam maior entrada de luz, deixando a sala mais clara. Eu gostava de deitar no sofá e ficar observando as nuvens passarem por lá. Às vezes, dava pra ver a Lua e quando o frio me tirava a coragem de ir lá fora com o telescópio, eu ficava ali olhando a lua passar e o desenho do céu modificar, dando a cada hora, lugar para diferentes constelações. Eu gostava de identificar as poucas que conhecia. Órion, Cão Maior, Cão Menor, Escorpião, Touro, Carina… Quanta paz… E às vezes, meu subconsciente me leva de volta pra lá. Eu sinto tanta falta da paz que eu sentia que chego a ficar angustiada com o sufocamento que São Paulo tem me proporcionado. Eu não gosto de morar aqui. Gosto dos meus cantinhos preferidos, a Livraria Cultura, meu nicho, mas não gosto daqui. Se pudesse iria embora agora. Agora eu não posso, mas um dia, vou poder novamente.

Sei que nada acontece por acaso e há motivos pelos quais eu tenha voltado pra cá, e um deles está bem claro: é um profundo aprendizado. Como todo aprendizado, nada fácil. Me ensinaram que a gente não aprende muita coisa durante uma festa, contando piadas num círculo de amigos. Laços podem até ser renovados assim. Aprendizado já é outra história. A vida nos dá tapa na cara porque merecemos mesmo. Muitas vezes, o motivo nem está na nossa memória consciente, é o karma, então ficamos assim, com essa cara de paisagem que eu ando ultimamente. Essa cara de quem está a ver navios. Talvez eu devesse parar de tentar compreender ou interromper a automutilação da pergunta que não quer calar, “onde foi que eu errei?” e realmente seguir o fluxo. Se eu errei, estou aprendendo, e se não errei, o Grande Livro do Aprendizado do Desprendimento se abriu bem na minha cara e não dá para ignorar que esse é o X da questão. Está aí. É tão óbvio. Talvez eu tenha passado a vida achando que as pessoas que amamos nos pertencem. Como eternas crianças mimadas, sempre reclamamos quando algo nos tira da zona de conforto. Eu tenho um amigo que me disse sabiamente, em 1999, que eu tinha que aprender a ter paciência. Eu achava a palavra “paciência” uma chatice só. Eu tinha medo porque eu não fazia a menor ideia de como lidar com esse negócio de ter paciência. Nos últimos 33 anos eu ignorei tanto a tal da paciência até que um belo dia, a vida resolveu me falar, “ah é? Então toma! Aprende, cara pálida!” E aqui estou, aprendendo a meditar para ter paciência. A renúncia à gritaria, à loucura, ao surto. Eu tive que aprender isso no momento em que eu tinha todo o direito de sair me descabelando como uma louca pela Avenida Paulista, gritando bem alto o nome de tudo que eu queria de volta. Mas então, eu resolvi procurar uma filosofia de vida que pudesse me libertar de todo o sofrimento, já que há coisas que percebi que não posso mudar.

Como se tivesse deitada no sofá da sala na minha antiga casa de Botucatu, estou olhando pela janela do pé direito alto, vendo as constelações passarem. Órion, Cão Maior, Touro. Todas lindas, brilhantes, com luz em abundância para nos inspirar na mansidão da alma. Vou tentar ter paciência, porque sei que tudo tem o seu tempo, sua hora, e há um motivo para isso. Um sábio me ensinou recentemente que nadar contra a correnteza do rio é inútil. So, let it flow.


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Paciência

Eu sou difícil. Eu sei. Eu sou mimada, impaciente e quero tudo na hora. Não é a toa que o maior sonho na vida está demorando tanto tempo para se concretizar. Com certeza, eu tinha algo a aprender com isso. Para aprender a não ser difícil é preciso conviver e nutrir afeto por pessoas tão difíceis quanto eu. Algumas, irredutíveis. Outras, com altos e baixos de irredutibilidade. O que acontece ultimamente é que eu percebo que as pessoas costumam agir de forma muito parecida a minha e é claro que isso me faz olhar para o céu e dizer, “dai-me forças”, porque uma das coisas que mais odiamos é ver nossos defeitos espelhados no outro. Mais difícil ainda é quando colocamos uma energia incrível em prol da evolução pessoal, mas as pessoas aparecem perto de você dotadas de muitos escudos, esperando que você aja como antes. Muito difícil fazer as pessoas entenderem que você não vai dar mais soco, chute ou coice, mas cheguei à conclusão que não adianta explicar. E a culpa de se aproximarem armadas até os dentes é toda sua. Ainda há um agravante. Se você explicar que começou a tomar atitudes opostas àquelas que costumava, é bem provável que seja convidada a consultar um médico. O jeito é esperar, ter paciência, dar tempo para garantir a mim mesma e às pessoas que essa não é uma fase hipponga transitória, e sim um projeto que pretendo levar por toda a vida. Além do mais, não quero ser a única a me beneficiar por isso. Eu não quero vestir uma calcinha azul com estrelas brancas e uma coroa amarela com uma estrela vermelha (é, eu estou falando da Mulher Maravilha) e sair no meu avião invisível salvando o mundo. Eu quero realmente ter a oportunidade de fazer algo genuinamente humano. E para isso, preciso encontrar o equilíbrio, o entendimento. Enlightment.

Hoje eu fiz uma aula de yoga experimental simplesmente maravilhosa. Com meditação no final. Namastê! E fui também inspirada pelo lindo Keanu. Encarnando Siddharta Gautama.