Deep Blue


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“Sempre Ao Seu Lado” para partir seu coração

PS: NÃO LEIA ESSE TEXTO SE O FILME “SEMPRE AO SEU LADO” ENCONTRA-SE NA LISTA DE FILMES NÃO ASSISTIDOS QUE VOCÊ ADORARIA VER. PRESENÇA DE COMENTÁRIOS A RESPEITO DO DESFECHO DO ENREDO E O LINK PARA A ÚLTIMA CENA ENCONTRAM-SE NO FINAL DO TEXTO.

Nada melhor para cinéfilos do que começar o ano com um bom filme. E esse programa da Net é realmente tudo de bom: escolha a sua opção de cardápio de filmes inclusos no preço, estoure a pipoca e divirta-se. Ou chore. Eu tenho um sério problema com essa história de chorar em filmes. Se é para chorar, que seja sozinha. Sinto-me constrangida de chorar na frente de outras pessoas. Por isso sempre disse a mim mesma que se um dia tivesse coragem suficiente para assistir “Sempre Ao Seu Lado”, que fosse sozinha. De preferência, sem a Luna, porque olhar pra cara dela durante o filme iria desencadear mais tristeza. Mas hoje de manhã, enquanto tomávamos café, e a Luna encontrava-se esparramada no sofá como de costume, meus pais resolveram assistir o tal filme. Imediatamente peguei meu laptop e tentei forçar a atenção para qualquer coisa banal, tarefa difícil quando no fundo você está se contorcendo de curiosidade e domina o idioma original do filme. Para piorar, Richard Gere faz papel de um professor de música, fazendo com que o som background do filme fosse música clássica de tom muito triste – perfeito para tornar o espectador em manteiga instantânea na frigideira. Pronto. O filme me cativou. Eu tentava desviar a atenção para qualquer outra coisa, mas todos estavam assistindo e eu não poderia simplesmente me trancar no quarto do meu filho, ligar no Discovery Kids e dançar junto com a Stephanie em “Lazy Town” e ignorar um lindo filhote de Akita perdido. Desisti do laptop e me entreguei ao açúcar canino. O filme é extremamente bem feito, daqueles que transporta você, Manteiga Pura, para dentro da tela e o faz viver todos os sentimentos do protagonista (Hachiko, o cão). O diretor, muito esperto, soube colocar o expectador sob a perspectiva canina em diversos momentos ao longo do filme. Determinadas cenas são em preto e branco e a imagem vira de ponta-cabeça quando Hachiko resolve deitar de costas na grama do jardim. Hachiko acompanha seu dono diariamente à estação de trem, e volta para esperá-lo chegar do trabalho. Um dia, porém, o personagem interpretado por Richard Gere sofre um ataque cardíaco durante a aula e morre. Mas o cão nunca o esquece. Todos os dias, o devoto e paciente Hachiko espera seu mestre retornar àquela mesma estação… até o fim de sua vida. O cão passa a vida ganhando a atenção e carinho das pessoas que trabalham e transitam pela estação, inclusive, um amigo pessoal do protagonista. O filme desenrola-se dessa forma e vai quebrando aos pouquinhos o coração do espectador, da primeira cena, à cena final. O desfecho é o momento mais emocionante do filme, conseqüentemente, o que mais chorei. Hachiko morre e o espírito do personagem interpretado por Gere vem buscá-lo na estação. Nesse exato momento, paro de escrever o texto e choro mais um rio de lágrimas ao rever esta cena no Youtube, tiro o óculos, respiro fundo e admito que estou emocionada demais para colocar meus pensamentos em ordem e terminar este texto. Há alguns sentimentos profundos demais para serem descritos num blog. É difícil assumir que essa emoção tão forte vem, principalmente, do fato de ter um cachorro em casa e ter a consciência  que a vida dela é bem mais curta que a minha. Os cães são assim. Têm a vida breve porque possuem um papel muito complicado: ensinar ao ser humano o valor do amor puro sem usar sequer uma palavra. Difícil, não é? São verdadeiros anjos de quatro patas. Geralmente, diferente do enredo do filme, somos nós quem os assistimos partir. E talvez devemos deixar o egoísmo de lado, praticar a difícil arte do desprendimento e assumir que o melhor é torcer para que assim seja mesmo, e não o contrário. Somos dotados de alma imperfeita, ao contrário dos cães, mas somos um pouquinho mais capazes de compreender que às vezes é necessário nos despedirmos das pessoas e animais que amamos. John Grogan sofreu a perda do Marley, seguiu a vida e encontrou no seu próprio livro a forma de lidar com a dor. Essa dor da perda, algo que nos assusta e às vezes nos tira o ar e o sono. Sabemos que nossa vida deve continuar quando a de alguém que amamos é interrompida. Mas como explicar isso a um cão?

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