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Dia Internacional de quem? Meu?

Desculpe… cheguei com mais um texto polêmico. E uma daquelas opiniões um pouco agressivas que às vezes simplesmente não consigo silenciar. Mas eu tenho enxergado algumas coisas com tanta clareza ultimamente que realmente não consigo ficar quieta. Será que minha visão do mundo ficou um pouco negativa demais ou a realidade resolveu realmente dar um tapa na minha cara? Seja como for, é difícil ignorar quando tantas coisas te incomodam. Quando cai o véu e desnuda tantas coisas óbvias, pano nenhum cobrirá novamente. O assunto polêmico da vez é o Dia Internacional da Mulheres. Meu objetivo não é discriminar ninguém, mas coloco em dúvida se eu sou tão especial assim para merecer um dia. Afinal, o que eu fiz de tão extraordinário? Nada. Mas as minhas avós, por exemplo, vejam, elas lavavam as roupas de cinco ou seis pessoas diariamente. À mão. Cozinhavam, limpavam, lavavam, passavam e necessitavam certificar-se de que todos da família estavam bem. O bem estar alheio era total responsabilidade delas. Eu? Ao longo da minha vida mimada, fritei uns ovos, fiz um arroz, sempre odiei trabalhos domésticos e reclamo dos meus baldes transbordantes de roupas sujas. Não lavo minhas roupas no tanque. Jogo tudo na máquina de lavar roupa e ela que se vire. Os dedos das minhas mãos não estão grossos e ralados por isso. Quando estou chateada ou triste, eu grito. Exijo o que eu quero em alto e bom tom porque eu não sou vítima da sociedade opressora dos anos 50 (ou antes deles). Sou “moderninha”. As minhas avós, não. Aguentaram tudo caladas. Meus pais pagaram meus estudos e nunca precisei trabalhar quando era nova. Tive dinheirinho para o cineminha e para a baladinha. Quando eu engravidei, meus pais bancaram tudo e ninguém cogitou a hipótese de falar, “se vira nos vinte” (não nos trinta porque na época eu tinha 23). Sou fresca, manhosa e chata. Aguentei dor de pontos de cesárea (tomei anestesia), num hospital limpinho, tive suporte do meu médico, dos meus pais, de enfermeiras que fizeram tudo para garantir o meu bem estar e do meu filho. Fui muito bem tratada e mimada. Claro que fiquei sensível, chorei olhando para o berço, mas eu tinha um estoque fantástico de fraldas Pampers descartáveis no armário, que ganhei de tantas pessoas! Obrigada! Minhas avós e meus pais lavaram muitas fraldas de pano no tanque… Nesse exato momento me sinto bastante confusa ao lembrar das inúmeras vezes que eu falei “foi tão difícil”. É, o cansaço às vezes, foge do nosso controle, mas nada que fuja de qualquer padrão ocidental da classe média. Hoje é mais fácil ser mãe de uma criança pequena do que há sessenta anos. E hoje é mais fácil ser mulher. Existem vários mimos disponíveis, alguns deles até oferecem um certo status social. Milhares, cremes antirrugas e outros mimos. Sim. somos mimadas demais.

Das minhas avós e minha mãe – que ralaram muito mais do que eu – até o Século 21 no Ocidente:  No nosso país inteiro, e principalmente no Sertão Nordestino, quantas mulheres passaram a vida  trabalhando sob um sol escaldante, em plantações, e que hoje exibem as marcas dessa luta: rugas, câncer de pele, seqüelas físicas e psíquicas, doenças crônicas, dores, perdas, traumas, depressão, fome. Muitas dessas mulheres não estudaram porque não tiveram oportunidade, muitas hoje são as velhinhas invisíveis da sociedade, aquelas por quem passamos com pressa na rua, rápido demais e sem tempo para olhar profundamente nos olhos, aprender algo e ouvir uma história

Na África e no Oriente Médio: Mulher não tem escolha. Em muitos lugares é violentada, está constantemente exposta a doenças, principalmente as DSTs. A epidemia de HIV e outras doenças é algo gravíssimo e sem controle na África. (Ontem eu li um texto e fiquei chocada ao descobrir que o próprio governo espalhou um boato sem o menor fundamento científico, dizendo que as vacinas contra pólio poderiam causar AIDS. E por esse motivo, a pólio, que era uma doença que havia sido erradicada, ressurgiu no Sudão. Isso foi em 2005). As mulheres africanas são vendidas às famílias de seus noivos, em troca de alguma quantia de dinheiro. As mulheres muçulmanas usam burcas, dividem o marido, são proibidas de expôr pensamentos, têm que cumprir regras. Muitas ainda sofrem circuncisão (têm o clitóris extirpado a sangue frio porque são proibidas do prazer sexual), são feitas de escravas sexuais, sofrem estupros (e são culpadas por eles), apedrejadas até a morte por motivos banais (expôr o braço acidentalmente, por exemplo – fato verídico). De alguma forma inexplicável (talvez um milagre divino), muitas delas sobrevivem. Que fortaleza é essa? De onde extraem forças para continuar sobrevivendo? Que perspectiva que têm essas mulheres na vida? Nenhuma. São privadas de quase todos os prazeres da vida, dos DIREITOS HUMANOS, confinadas, passam a vida seguindo o que lhes é dito para cumprir.

Portanto, diante dessa minúscula amostra de atrocidades que acontecem ao redor do mundo com as mulheres, eu digo, são as mulheres, brasileiras e todas as outras do mundo inteiro que sofrem e lutam, por tantos motivos (miséria, opressão, doenças, violência) as merecedoras de um grande presente nesse dia e nos outros 364 do ano, um presente que talvez muitas delas jamais receberão: “Dignidade, Respeito e Direito de viver a vida como humanas”. Gostaria que todas elas desfrutassem, em algum momento da vida, um “feliz dia de viver com dignidade.”

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