Deep Blue


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Silêncio, Mundo Egocêntrico!

Tem muito barulho lá fora. As pessoas perderam um pouco a noção das coisas, no geral. A gente grita muito, fala muito e ri muito alto, o tempo todo, imaginando que o som excessivo vai preencher algum espaço vazio. Tolice. Isso não é nenhuma crítica à demonstração de felicidade, porém existe uma linha tênue entre a percepção da felicidade genuína e a loucura. A gente grita coisas tolas, fúteis. Principalmente no Facebook. A gente grita para deixar bem claro que tem um esmalte novo, uma roupa, um carro na tentativa de cobrir aquilo que nos falta na alma: amor, compaixão, uma proposta de levar a própria vida com veracidade e sem orgulho. Estou ficando assustada ao constatar que nós somos mesmo a única espécie mesquinha nesse planeta, a única alimentada pela futilidade. Antigamente, tirávamos fotos para eternizar um momento feliz. Tenho álbuns de fotos na minha casa que foram montados desde 1977, um ano antes do meu nascimento. Tínhamos naquelas fotos, momentos eternizados. Adoro rever as fotos daquela época, adoro as fotos que tirei no colo dos meus avós, brincando com meus primos, no parque com meus pais. Não se valoriza mais esse tipo de foto. Porque fotos assim não dizem nada para usuários do Facebook. Raríssimas vezes (só uma) vi uma foto de um casal com aquela cara de “pijama”, felizes, acordando juntos. Cara limpa, cabelos bagunçados, e olheiras, sorrindo. Que foto bonita. Ficamos tão fúteis, que me assusta. Nossas fotos no Facebook parecem crianças dizendo, “mãe, olhe para mim!”. Esfregamos nossa felicidade nas caras alheias ao invés de compartilhá-las. Afinal, eu duvido que cem por cento das quase quinhentas pessoas na minha lista de amigos do Facebook me queiram tão bem. Pensando bem, seria tão bom que quisessem. E seria tão bom se eu quisesse bem essas mesmas quinhentas pessoas. Criaríamos uma corrente do bem, na qual todos ficassem felizes pela felicidade alheia. Mas é perigoso expor a sua felicidade hoje em dia. Ela faz muito ruído em certos ouvidos. Que pena que ficamos assim. Ninguém está interessado na corrente do bem, apenas no seu próprio umbigo. Somos crianças mimadas de mais de vinte, trinta, quarenta anos dizendo, “olhem para mim, olhe como sou feliz. No mesmo dia em que tirei essa foto, me senti sozinha e precisei muito rever meus amigos mais queridos, mas como sou orgulhosa demais, eu não liguei pra ninguém. Ao invés disso, ‘loguei’ no meu Facebook para expor essa minha felicidade passageira, segurando um copo ao lado dos meus amigos que encontro de verdade uma vez a cada dois anos, numa festa.” Como estamos tristes e destruídos por dentro. Mas acho que existe uma razão pela qual tenhamos chegado a um momento tão decadente: perdemos os valores, a capacidade de nos importarmos com as pessoas. Enxergamos a tristeza alheia e tendemos a nos afastar das pessoas que estão tristes para “não sermos contaminados” por aquela energia tão ruim. É mais fácil fazer isso do que estender a mão. E assim, vamos ficando cada vez mais sozinhos. Perdoem-me pelo tom deprimente do meu texto, não acredito que tudo isso seja irreversível. Creio, porém, que é necessária muita energia para reverter esse processo egocêntrico e sair de dentro do próprio mundinho para enxergar os outros. Aliás, acredito que em tempos de tanto egoísmo, é uma atitude urgente para sairmos da estrada que pegamos em direção ao caos. Difícil? Não. Basta querer. Mas afinal, quem quer?

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