Deep Blue


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Histeria social urbana

Somos histéricos. Achamos que não seremos felizes se passarmos o final de semana todo sem ir a algum lugar descolado para ter o que contar na segunda-feira. A busca errante pela felicidade, só pra variar. O ser humano é mestre em autossabotagem.

Há algumas semanas, estamos encontrando dificuldade de entrar nos shoppings de São Paulo aos finais de semana. Com o tempo mais frio, paulistano não tem o que fazer, e se esconde dentro de shopping. É verdade que temos mais opções de lazer na cidade, mas cá entre nós, ora temos preguiça de adotar um estilo de vida “shopping free”, ora deixamos para a última hora buscar essas opções alternativas – e acabamos desistindo. A verdade, é que esse estilo de vida tem se tornado um verdadeiro inferno. Não há nada de divertido em passar horas dentro do carro, olhando torto para o cara do carro da frente que encontrou uma vaga antes de você no estacionamento, ou descobrir que vai ser impossível assistir ao filme que você gostaria porque todas as sessões estão lotadas, ou ouvir a hostess na porta do restaurante que você gosta de freqüentar, dizer que o “tempo de espera é que aproximadamente noventa minutos”, às três horas da tarde, enquanto você está morrendo de fome, afinal, você não tomou café da manhã: hoje é domingo e você saiu da cama ao meio dia e cinquenta e oito. Ultimamente, por uma questão econômica, temos preferido a praça de alimentação. Nesse caso, conseguir uma mesa para duas ou três pessoas merece “Missão Impossível” como fundo musical. Caso a missão torne-se realmente impossível, você apela para uma coxinha na doceria, ou um frapuccino do Starbucks – mesmo sabendo que vai se arrepender quando ouvir o valor que vai pagar do seu pedido – um lanchinho de setenta reais para três pessoas. Realmente, o terror para quem precisa economizar. Antes de tudo isso, você tentou comprar duas calças de moletom para fazer yoga numa dessas lojas de departamento (porque no último verão, resolveu doar quase tudo), e depois de tentar manter todo o seu equilíbrio interno com superlotação e paciência que requer toda loja de departamento, inclusive fila, descobre – na hora de pagar – que o seu cartão foi cancelado por… falta de uso. Para reativá-lo, precisa apresentar – em outro departamento – um comprovante de residência. Claro que é superprevisível que você ande com uma conta de celular, água, luz, gás, no shopping, em pleno domingo. O seu noivo tenta ser gentil e pede para passar o cartão DELE, e então, descobre que o teve cancelado pelo mesmo motivo. Com raiva, ele quebra o cartão em mil pedacinhos na frente da atendente e jura em voz alta que nunca mais voltará naquela porcaria de loja. Aí você lembra que provavelmente, depois que a data consumista do mês (dia das mães) passar, tudo estará em superliquidação, lembrando que o inverno está chegando e as marcas trocarão a coleção. Mas não se esqueça… eu não queria renovar meu armário… eu só queria comprar uma roupinha para praticar minha yoga (porque eu engordei 13 kg, ou seja, nada serve!) E porque eu entrei em um shopping paulistano lotado, procurei a loja mais barata para isso, eis o saldo: duas pessoas irritadas, um cartão destruído, e eu pensando que tudo o que eu queria era não estar mais em São Paulo. De novo.  Não faz mal ter saído do shopping sem a roupa de yoga. Afinal, era só uma roupa de yoga, não vai me fazer falta. Tenho outras roupas para praticar exercícios, mais antigas, meio apertadas, mas tudo bem. Coisas realmente importantes não me faltam, graças a Deus! Longe de mim, bater o pé de me debater no chão por causa de uma roupa, afinal, eu tenho o que comer, tenho com o que me cobrir e tem gente na rua passando fome e frio, principalmente nessa época do ano. Mas o que me chateia é ter voltado para essa cidade histérica. Onde estacionar o carro em qualquer lugar onde você vá virou algo tão importante quanto passar um tempo com a família, e onde conseguir algo realmente simples é bem perto a algo que se assemelha a uma epopeia com gladiadores e leões dentro do Coliseu. E eu lembro que se as coisas tivessem ocorrido conforme nossos planos de vida iniciais, eu não teria ido ao shopping como desculpa para passar o tempo ao lado do meu noivo. A roupa poderia ficar para outro dia menos histérico da sociedade paulistana. Eu teria feito spaghetti na manteiga com alcaparras de pijama. De sobremesa poderia ser brigadeiro de colher na frente da TV, assistindo um filme tosco com o Will Smith na Universal. Poderia até pedir só mais um coisinha? Poderia abrir a janela e ver as estrelas, os pássaros, o verde, assim como via em Botucatu… Enfim, no fim das contas, era só disso mesmo que eu precisava na vida.

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